19 fevereiro, 2017


A verdade é um Poliedro?


Variante de la tristesse, 1957
René Magritte
Kerry Stokes Collection, Perth

René Magritte pintou uma tela (Variante de la tristesse, 1957) que me parece ser extraordinariamente expressiva sobre a efemeridade da vida. A angústia, inquietação e perplexidade que está subjacente ao confronto com a morte é decisiva na forma como interpretamos e vivemos a vida. Entre o tempo (sempre curto) que medeia o nascimento e a morte, o homem, como ser social, estabelece os termos das relações consigo próprio e com os outros.
Em comunidades locais e de proximidade as relações sociais assentaram sempre na confiança. O livre-arbítrio coexiste com o respeito pela sociedade em que se vive. E aí nasce a importância da verdade.

Vem isto a propósito da novilíngua que nos últimos meses tem invadido os meios de comunicação e as redes sociais. Na sequência das eleições norte-americanas e de tudo o que lhe esteve associado (embora o fenómeno já fosse anterior) o dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” como palavra do ano de 2016, considerando-a um adjetivo que faz referência a “circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”. E assim, legitimada pela nova “Academia” das redes sociais e da imprensa de pasquim, passámos a incluir também no léxico corrente as palavras pós-facto ou facto alternativo, as quais foram imediatamente apropriadas por responsáveis políticos para justificarem o seu ignóbil discurso.   

Em vez de apelidarem com veemência de “mentira” tudo o que aparece com a chancela de “pós-verdade” ou “facto-alternativo”, a norma politicamente correta e as elites do mundo dito desenvolvido pouco se indignam e importunam por pronunciar oximoros com a naturalidade e normalidade que só a ignorância e a imoralidade podem explicar. Provavelmente porque as palavras perderam o significado. E a vida parece que também.

Há mais de dois mil anos que muitos se debruçam sobre a verdade e como alcançá-la. Houve filósofos que com alegorias evidenciavam a importância de distinguir a verdade das aparências. Consensual sempre foi que uma impressão falsa da realidade não é mais do que uma aparência. Uma ideia, opinião ou simplesmente impressão exterior que resulta do julgamento feito sobre um objeto não é necessariamente a verdade. A aversão à mentira pareceu sempre ser o caminho para uma vida boa e a base da ética e da civilidade. A busca da verdade era uma qualidade natural para o homem que procurava a perfeição.
“O que é a verdade?” (1). Embora a pergunta de Pilatos dirigida a Jesus Cristo não tivesse obtido resposta, não consta que tal tenha constituído a causa para a anomia que assistimos.
Verdade, semelhança, presunção, suposição, fé, indício, mentira tratam-se hoje como sinónimos. A verdade já não interessa. As mentiras legitimam-se como se se tratasse de um ponto de vista. Tudo parece ser relativo. Cada um pode ter a sua (ou as suas) verdade (s) independentemente dos factos, que passaram a ser irrelevantes. Substituímos a racionalidade que conduz à verdade, pela subjetividade temperamental e pelo relativismo emotivo que seleciona os critérios de acordo com a pessoal conveniência.

Não está em causa a existência da mentira, o que é relevante atualmente, é que ninguém se importa que ela seja veiculada com naturalidade e indiferença. A crença inabalável que há vários séculos foi transferida para as ciências, iluminismo, positivismo, racionalismo, progressismo, materialismo (que sucessivamente foram substituindo a escatologia transcendente como novos dogmas) é a isto que nos conduzem?
A liberdade conduz a elementos positivos quando ligada a uma matriz ética. Hoje contudo, parece que todos desprezam a sociedade em que vivem, e portanto nenhuma ética se afigura necessária.

“Artigo I: Fica decretado que agora vale a verdade (….) Artigo V: O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa”(2). Como se sentiria hoje Thiago de Mello perante a atual realidade?!

Parece que num mural da Universidade do Porto alguém escreveu: “Queremos mentiras novas”. Possivelmente passámos a estar convencidos que para superar a realidade iníqua que temos, só a mentira seria alternativa. Na aldeia de meus avós havia a “palavra de honra”. Hoje parece que as palavras já não têm qualquer virtude. Vícios e virtudes: tudo parece ser relativo.
O país mais desenvolvido do mundo (EUA) que no último século pretendeu impor o seu “modelo” ao resto do mundo, dá-nos um exemplo de degenerescência moral que poucas comunidades no planeta parecem compreender.

A continuar assim, não será surpreendente que num futuro próximo, poucos compreendam a ironia incluída na literatura de Oscar Wilde (3):

John: Gwendolen, é uma coisa terrível para um homem descobrir de repente que toda a sua vida não disse senão a verdade. Podes perdoar-me?
Gwendolen: Posso. Pois sinto que com certeza hás-de mudar.

Deveria ser obrigatória a prescrição em grandes quantidades, de romances, poesia, teatro, música ou outras formas de criação artística a quem pretendesse assumir responsabilidades políticas. E algumas doses de História. Talvez ajudasse. Entre o nascimento e a morte, não pode ficar um vácuo de virtudes pessoais. A desorientação moral e o impulso do momento não se podem sobrepor à busca da verdade que oriente qualquer comunidade. A verdade, a sabedoria, a coragem, a humanidade, a justiça, são algumas das virtudes de sempre para superar quaisquer teorias amorais ideologicamente veiculadas. A verdade não é um poliedro.


(1)                Bíblia Sagrada | João 18:38
(2)                Thiago de Mello | Os Estatutos do Homem
(3)                Oscar Wilde |A importância de ser Earnest, in A importância de ser Earnest e outras peças | Relógio d’Água |Março 2003
 

15 fevereiro, 2017

Ciaccona BWV 1004

Ciaccona BWV 1004 - J. S. Bach

Gravado em casa, a 14 de Fevereiro de 2017.




12 fevereiro, 2017





 

Atitudes

Nada parece fazer sentido em si mesmo, mas em virtude da sua relação com alguma coisa. Isolar o pensamento humano significaria a redução absoluta ao absurdo, sobretudo pela sua limitada capacidade de apreensão da totalidade. Renegar a relação das partes com o todo é a criação de ilhas existenciais que são motores de produção de egoísmos e de pensamentos egocêntricos que em muito tem contribuído para uma actualidade universal.
A inversão deste exercício mental, e do seu alargamento da escala às dimensões da humanidade e da totalidade do tempo, implica desafios gigantes mas dentro da dimensão humana, por forma  a procurar o sentido nos seus próprios actos dentro da globalidade, ou seja, “não dar mais valor à queda de um império que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às acções de um rei do que a um suspiro de amor” conforme afirma o historiador José Mattoso.
A pretensão da totalidade é um desafio à capacidade humana, e abarcar tal empresa poderá divergir tanto quanto a riqueza e diversidade da sua natureza. Estará de qualquer forma sempre dependente da atitude do próprio homem, pelo que, pela liberdade que possuo defendo a atitude contemplativa*. Esta atitude não pretende afirmar-se como ideia de passividade, de “irrealismo beatífico”  ou de uma qualquer procura transcendental. Procura antes uma observação atenta do real ou como afirma Alberto Caeiro “da espantosa realidade das coisas”.
Esta atitude procura estender o olhar até aos limites da história e do Universo com a pretensão de tudo envolver num único olhar. Esta ambição pela totalidade é pois a observação que procura captar todas as suas dimensões: não apenas as mensuráveis mas o que as coisas evocam ou simbolizam, não apenas o que a ciência pode classificar com as suas metodologias mas o que também pode ser captado pelo registo poético ou artístico.
Abrir o pensamento à totalidade é pois um desafio do homem à apreensão do real em todas as suas facetas e implica a sua vontade para disponibilizar recursos racionais mas também volitivos, o que significa afirmar que os sentidos do corpo e do espírito se devem “abrir” de tal modo ao real que lhe seja como que interiorizado e absorvido pelo próprio homem.
Esta atitude ou exercício é pois um ato de amor, que pretende a parte no Todo, o homem na Humanidade. 

 * Expressão retirada do autor José Mattoso no âmbito da Conferência realizada na Faculdade de Ciências da Universidade de Nova de Lisboa



08 fevereiro, 2017

Escrever à maneira de (várias) pessoas


Medley Pessoano*

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…

Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.


*compilação de versos dos poemas "O andaime" (Fernando Pessoa), "Tabacaria" (Álvaro de Campos) e "Guardador de Rebanhos" (Alberto Caeiro)

05 fevereiro, 2017

O Bairro do Amor 2

Ermegildo nunca fora homem de fé. Agora, ali estava, ajoelhado de mão dada com o remorso e com a angústia entranhados por dentro. Na verdade, de pouco lhe valeu o cheiro a incenso e os por “minha culpa, por minha tão grande culpa” das missas dominicais. Os seus encontros amorosos estavam cada vez mais refinados. Ao fim de algumas semanas recebia a vizinha com uma encenação que em nada tinha que ver com a timidez inicial.
“A senhora faça o favor de entrar.”
E a vizinha entrava. Sempre obediente e atenta aos pormenores cada vez mais requintados na exigência do vizinho.
“Faça o favor de dizer.”
E a vizinha fazia o favor. Dizia que vinha por este ou por aquele assunto sempre muito urgente e em falta de cumprimento. Ermegildo tornava-se sério, a repartição estava em hora de fecho, mas se quisesse aguardar na sala de espera, talvez fizesse algo por ela. Encaminhava-a para o sofá da sala e dizia-lhe para se sentar. Uma vez sentada, a vizinha, trocava a perna e inclinava-se de forma que a coxa fosse mais que uma promessa mas uma certeza inabalável perante o olhar inquisidor de Ermegildo que se sentava na mesa oposta para onde tinha trazido a sua velha máquina de escrever.
Começava a datilografar lentamente com os olhos cravados no papel. Depois, aos poucos, e com movimentos quase imperceptíveis, olhava a vizinha que se lhe apresentava defronte, mas com um olhar tão sério que quem visse aqueles dois na sala de estar do primeiro andar do prédio do Bairro do Amor acreditaria que estavam ali o funcionário e a cidadã, ambos em suas funções perfeitamente legítimas. Ermegildo prolongava a datilografia do ofício em notas melosas e cadenciadas enquanto a vizinha, ao fim de algum tempo, se começava a despir. Sentada e sem qualquer intenção reveladora no gesto que fizesse antecipar o movimento seguinte. Poder-se-ia dizer que o fazia como se não estivesse mais ninguém na sala, como se este fosse um ritual de um passado longínquo que reincidia naquele fim de tarde. Ermegildo observava a nudez da vizinha e emudecia o tremor que lhe atravessava a garganta. Ao mesmo tempo interrogava-se sobre si mesmo, sobre a vida toda que o levara até àquele momento. Afinal também era isto. Como se descobrisse uma palete de cores que lhe tresmalhavam a certeza do preto e branco com que regia a vontade e a noção de certo e errado. Foi num sábado à tarde que percebeu que estava irremediavelmente apaixonado. Não pela vizinha, que aguardava nua da cintura para cima, mas pela possibilidade que aprendera a reconhecer como um recomeço. Cada decisão que tomava sabia-lhe agora a uma oportunidade com que nunca antes sonhara.

Pedro Gonçalves
com John Grant, marz

04 fevereiro, 2017

palimpsesto [#2.1]


Acto Primeiro (Versão 2.1)
[Os dois corpos celestes permanecem deitados em decúbito ventral. Nada se moveu. A Terra continua suspensa, mas a tocar o chão, prostrada, também, como os corpos. A esfera achatada que a compõe aparenta ter perdido volume, aparenta mais achatada que nunca, mantém o seu formato frouxamente. É visível, ao longe, a tabuleta improvisada que a identifica.
 <---- TERRA
Essa tabuleta é útil a quem passa. Os dois corpos celestes, adormecidos, balbuciam alternadamente, materializando os frutos de pesadelos, em tom crescente]

[quase inaudivelmente]:
@: Aos 64 anos, Bruna Lombardi, de biquíni, reúne elogios.
π: Trump proíbe entrada de muçulmanos nos EUA.

[entre-dentes e vagarosamente] 
@: Após separação de Angelina Jolie, Brad Pitt terá engravidado Kate Hudson.
π: Cartazes em manifestação em Chicago anotam: "Rise up".

[sussurrando] 
@: Salvem a Melania.
π: Rússia financia campanha de Le Pen.

[ciciando]
@: Casa Branca enganou-se a escrever Theresa May e esta ficou com nome de atriz porno.
π: Madeleine Albright admite registar-se como muçulmana.

[aumentando o volume e o ritmo mas ainda baixinho e vagaroso]
π: Hitler eleito democraticamente.
@: Melania (o)usada na capa da Vanity Fair mexicana.

π: [conservando o volume mas em ritmo crescente, denunciador de nervosismo, ainda deitado, mas por pouco tempo] Impressora 3D imprime pele humana, 100% funcional. 
Cientistas criam embrião híbrido metade porco, metade humano.
"1984" de Orwell esgota no Amazon.
Impressora 3D imprime pele humana, 100% funcional. 
Cientistas criam embrião híbrido metade porco, metade humano.
"1984" de Orwell esgota no Amazon.
repeat
repeat

@: [em volume idêntico mas tom conformado e suspirante] Valter Hugo Mãe não matou o Pai Natal mas disse umas verdades sobre os orifícios da tia de alguém.

[π levanta-se energicamente, em sobressalto e em volume e ritmo crescente, nervoso]

π: "Todas as criaturas que caminham sobre duas pernas são nossas inimigas"*
"Todos os hábitos do Homem são perversos"* 
"Nenhum animal usará roupas"* 
"E vou poder continuar a usar laçarotes na crina?"*
[gesticulando com um movimento de rotação da cabeça em torno do pescoço, 90º e -90º, 90º e -90ºe 90º e -90º]
Não, não, não! Não vamos simplificar os 7 mandamentos! 
 
@: [Ainda deitada, em tom suspirante, tapando os ouvidos com cada uma das mãos, respectivamente]
Vintage, Gourmet
Vintage, Gourmet
Vintage, Gourmet

π: [Abanando a cabeça lentamente, olhos fixos no chão, em tom de resignação]
"Quatro patas bom, duas pernas mau."*

π: [Ganhando fôlego, timidamente] Spiegelman retrata os nazis como gatos, os judeus como ratos, os polacos como porcos e os americanos como cães. Todos são terrivelmente humanos"**

@: [Tirando as mãos e dando bofetada a si própria] Rússia aprova "lei da bofetada".

π: [Em ritmo novamente crescente] Porque maior do que toda a vergonha da guerra é a vergonha de os homens já nada quererem saber dela, suportando que haja guerra, mas não que a tenha havido.***

@: [Abrindo os olhos lentamente]Pedro Chagas Freitas.

π:[Gritando] "(17) "Vem! Vou mostrar-te como será julgada a grande prostituta, que está sentada à beira de muitas águas. Os reis da terra prostituíram-se com ela. Os habitantes da terra ficaram bêbados com o vinho da sua prostituição" (20) O fim dos tempos já começou- Depois disto vi um Anjo descer o céu. (...) Vi então tronos, e os que se sentaram nos tronos receberam o poder de julgar."****  

@: [Acorda sobressaltada, senta-se ortogonalmente à superfície e grita] Um dia vai arder tudo. Tudo o que vês, irá arder um dia.

π: [No mesmo tom aflito] Escathon, Escathon...

@:[A chorar e soluçar] Um dia irá arder tudo!

[Os corpos celestes voltam a cair no chão, exaustos, como corpos cilíndricos e invertebrados. Após a queda segue-se um momento de silêncio interrompido pelo movimento enérgico de @, que se levanta a correr. π continua imóvel e deitado.]

@: A música. A música. A música. Espera, a música. O nosso produtor de som abandonou-nos. Espera.

[@ mexe no telemóvel e faz soar as colunas. Coloca um gancho no cachaço de π e no seu. Enquanto ouvem a música PLAY
Kraftwerk | News, os dois corpos celestes são elevados de mão dada, ficam suspensos. Todo o cenário escurece. Há leves luzes que imitam estrelas. Há espelhos que multiplicam essas luzes de estrelas. E outros espelhos que multiplicam as imagens dos espelhos. Há difusão de imagens. Dificuldade em identificar objectos. Os nossos corpos celestes são luzes incapazes de gerar imagens nos espelhos. Observam que a Terra também não reproduz imagem no jogo de espelhos. Olham-na com tristeza. Choram e chove. Há um espelho no chão. Confundem-se os pingos da chuva, reproduzidos pelos espelhos em movimentos ascendentes e descendentes, como se desaguassem numa nascente. Princípio e fim unidos. Os corpos continuam a subir muito lentamente e só param quando alcançam as tabuletas que os identificam
 <---- π       <---- @   
Continuam a olhar para a Terra]

@: Um dia vai arder tudo.
π: Como eu gostava que concordássemos em discordar! 
@: Parecem formigas.
π: As formigas não destroem os seus próprios carreiros.

[Observam novamente a Terra, em silêncio]

π: [retoma conversa]Os sobreviventes do "11 de Setembro", os que estavam dentro do edifício não se aperceberam do que se passava, ao contrário do resto do mundo.
@: "Há que sair da ilha para ver a ilha".
π:[vira-se surpreendido] Saramago?
@: Hoje já não seria assim. Nas redes sociais apareceria, sordidamente, cada pormenor, na perspectiva de cada vítima.
π: Houvesse rede.

π: [em tom profundo-cavernoso]"Vi então tronos, e os que se sentaram nos tronos receberam o poder de julgar."****
@: Um dia será assim.
π: Assim, como?
@: Uma espécie de purgatório digital.
π: E não precisaremos de ninguém para nos julgar - apunhalados pela nossa consciência, qual Samurai.
@: Olha o talhante.
π: Que fará a entrar no W.C. público?
@: Não quero imaginar. Mas estou contente por ser vegetariana.
π: Deves pensar que o Miso é mais higiénico.
@: [dirigindo olhar sedutor] Tu sabes, em questões de comida, prezo a higiene acima de tudo.
π: Olha o fanático do Benfica a contornar o Café Central, na sua lambreta icónica.
@: E o espalhador de folhas? Haverá profissão mais inútil?
π: Conheço uma.
@: Eu também. A tua.
π: Nunca serei capaz de te dar poesia, pois não?
@: Sabes o que penso da poesia. E não faço questão de mudar de opinião.
π: Sempre imaginei que o amor nos salvasse.
@: O amor? Achas? Achas mesmo? Inocência! O amor é a forma de egoísmo mais pura que conheço. Preferimos amar a ser amados. Somos felizes quando nos sabemos capazes de amar. E não é para dar a mão a quem amamos, mas para conhecermos os limites da nossa. 
π: Então por que sobrevivemos?
@: Porque tudo o que nos garante a sobrevivência dá-nos prazer: comer e foder.
π: E sobreviveremos?
@: Não sei, passamos a vida a contabilizar calorias e doenças venéreas.
π: Talvez sinta algum medo.
@: O medo salva-nos.
π: E tolda-nos. Inibe-nos. Não nos deixa sermos o que gostaríamos de ser.
@:  Na maioria das vezes, é uma bênção. Se cada ser humano fosse na medida em que gostaria de ser, verdadeiramente, talvez já não existisse mundo.
π: A maldição do homem é o que o distingue dos outros animais.
@: E ainda dizem que "nada é mais bonito que a inteligência"*****.
π: Crítica da razão Pura?
@: Não! Lidl- a campanha do creme Cien Aqua - "para mulheres mais do que bonitas".
π: O conhecimento é, cada vez mais, um lugar comum.
@: O que é verdadeiro acaba em clichet porque funciona.
π: Até não haver matéria de clichet que suporte os milhões. Irónica democracia. Não nos resta mais nada em que acreditar?
@: Eu acredito no Head & Shoulders e no Agroal, ajudam-me na psoríase.
π: Desculpa se te acordei, há pouco.
@: Eu nunca acordo- durmo desde que nasci.
π: E quando pretendes acordar?
@: Hoje não, com toda a certeza. Hoje é mau dia para acordar.
π: Por teres medo?
@: Claro. Medo, medo, medo é tudo o que tenho.
π: Não acredito. Além disso, o teu medo não é o meu medo.
@: Não basta haver nomes a mais ainda queres que sejam ambíguos?
π: Os conceitos nunca serão a mais. Aumentam os conceitos, aumenta a liberdade. 
@: E, no entanto, criá-los é dar oportunidade de nomear a estupidez, a inutilidade, a futilidade.
π: Nós somos diferentes. Não falamos a mesma língua.
@: Mas compreendemo-nos.
π: Às vezes tenho as minhas dúvidas.
@: Experimenta. 

[π faz um pequeno compasso de espera e ataca]
π: Jogos de linguagem.
@: "Cada cabeça sua sentença".
π: Cinética filosófica.
@: "Onde vai um português vão dois ou três".
π: Imperativo categórico.
@: "Quem tem cu tem medo" 
π: Imanentização escatológica.
@: "A esperança é a última a morrer".

[π, ainda suspenso e cintilante, olha para a Terra. A Terra vai-se enchendo de luz. Aparenta mais volume mas pode ser uma mera ilusão óptica. Os dois corpos suspensos bamboleiam em direcção à Terra, imitando o movimento de voo. Espetam as suas tabuletas na Terra, pela seguinte ordem: 
  <---- TERRA     <---- π     <---- @   
Nenhuma das tabuletas gera imagem nos espelhos. Os corpos e a Terra também não. Deitam-se sobre ela em decúbito ventral, acompanhando a sua forma esférica-informe, reservando aos braços a posição lassa que lhes é habitual.]  

π: Achas que ainda há esperança?
@: Para nós? Que importa? Somos personagens de ficção.
π: [ri desalmadamente] Nós? ahahahah? O quê?
@: [séria] Sim. Há quem queira fazer de nós super-heróis da BD.
π: Tipo Dog Mendonça e Pizzaboy?
@: Eu disse-te que não estávamos sozinhos.
π: Assusta-te?
@: Sermos fruto da imaginação ou heróis em cuecas?
π: Não estarmos sozinhos.
@: Se formos fruto da imaginação, acabamos onde começamos e começamos onde acabamos. Ou não achaste estranho o espelho não reproduzir a tua imagem?
π: É por isso que este Acto continua a ser o Primeiro?
@: Não. Isso é um capricho matemático! Tal como o Nautilus Marinho e os coelhos, obedecemos à sucessão de Fibonacci. 

[Os dois corpos viram-se lentamente, sincronamente, posicionam-se em decúbito dorsal. Observam as estrelas e as imagens das estrelas. E as imagens das imagens. Até que adormecem, balbuciando]
  
π: Terra... Espelho... Ausência de imagem... Fruto da imaginação?... Terra?
 
[Ao longe ouve-se  PLAY Nick Cave& The Bad Seeds | Magneto
E o mistério não ficou desfeito: terá o produtor de som voltado a tempo do fim do segundo Acto Primeiro?]
<--- vasleuqaR <---
______
* George Orwell | A quinta dos animais | Antígona | 2013
** Revisão crítica de Maus de Art Spiegelman in The Times
***Karl Kraus | Os últimos dias da humanidade | Antígona | 2003
**** Bíblia Sagrada
***** Campanha publicitária do Lidl

NOTA: Neste texto, qualquer semelhança com factos verídicos não é pura coincidência.

29 janeiro, 2017

Rua do Capelão

Uma rua, um encontro, uma experiência...






23 janeiro, 2017

Beatriz

para a minha filha Beatriz...


19 janeiro, 2017


Entre tanto

O Grito
Edvard Munch
National Gallery Norway

Gritamos quando a realidade nos interpela de forma intensa. Deixamos de gritar quando, mesmo instados a fazê-lo, nos faltam as forças, estamos anestesiados ou ficámos empedernecidos.
Economia. Não era por aqui que tinha planeado começar, mas não me resta alternativa. Se concordo com Bachelard quando diz que “aquilo que se vê não se compara com aquilo que se imagina”, julgo, contudo, que dificilmente a imaginação humana poderia considerar a realidade que pretendo comentar. Todos os anos em janeiro, a organização não-governamental britânica OXFAM publica relatório sobre repartição da riqueza no mundo. E foi o que aconteceu no início desta semana com o relatório An economy for the 99%
As conclusões são estarrecedoras:
1. Em 2016, 8 pessoas no mundo detêm tanta riqueza como 50% da população mundial mais pobre. No relatório sobre 2015, eram 62 pessoas, e em 2010 eram 388 pessoas que concentravam riqueza equivalente às 50% mais pobres;
2. Desde 2015 (mais cedo do que se previa) que 1% da população mais rica detém mais riqueza que os restantes 99%;
3. A população 10% mais rica detém 89% da riqueza mundial;
4. No relatório de 2015 (An economy for the 1%), refere-se que desde 2000, 50% da população mundial mais pobre apenas recebe 1% do acréscimo global de riqueza que ocorre no período.
Os detalhes e estatísticas poderiam continuar, mas já chegam estes números indignos. As conclusões do relatório de novembro do Crédit Suisse (“Global Wealth Report 2016”) apontavam no mesmo sentido.
Os recursos da nossa terra comum não podem ser alocados de forma tão ineficiente e iníqua. A economia tem de estar ao serviço do homem. A primazia do homem não pode nunca ser ignorada.
Não nos podemos resignar a um funcionamento global da economia que motive diferenças tão assinaláveis e que constituem atentado à dignidade humana. Segundo Catherine Denny, um terço da população mundial vive pior do que as vacas na Europa que recebem, em média, 2 euros por dia em subsídios.
A ausência de soluções terá consequências desastrosas. O regresso do populismo, o descrédito dos actores políticos, a aversão ao estrangeiro, o medo transformado em normalidade, a tentativa de personificação do mal, a guerra, são consequências e não a causa de um problema maior cuja origem está numa desigualdade inédita (mesmo admitindo o elevado número de pessoas que têm saído da pobreza extrema).
Não conheço as soluções mas algo tem de ser feito. Tem de haver solução. Há sempre solução. Se o homem vai à lua e se consegue descodificar o genoma humano, tem inteligência e criatividade para construir soluções, sempre no respeito da dignidade e da natural liberdade humana. Assim o queira fazer. E por favor, que se coloque este problema no debate central e deixem de nos inundar e anestesiar com falsos problemas.
Não nos podemos empedernecer ao ponto de deixar de gritar. Não nos podemos resignar. Entre tanto recurso disponível, é fundamental que entretanto se faça algo. Para que não se cumpram os versos de Luis Filipe Castro Mendes:
 
“Nós vivemos da misericórdia dos mercados.
Não fazemos falta.
O capital regula-se a si próprio e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os mercados são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta” (*)


                                                                                                                                                                     Paulo Reis, in KZ

(*) A misericórdia dos mercados, in A Misericórdia dos Mercados, ed. Assírio & Alvim, 2014


15 janeiro, 2017

O Bairro do Amor - Ilustração



Nota:
Sendo amante de BD, tenho grande admiração por autores como Frank Miller, Warren Ellis, Enki Bilal, entre outros! A arte gráfica é simplesmente genial! Humildemente, 

no seguimento das minhas recentes incursões pelo desenho, deixo aqui uma sugestão para o Bairro do Amor da autoria do meu amigo Pedro Gonçalves!

11 janeiro, 2017






Reflexos

As águas do lago pareciam agora mais calmas após o lançamento de  várias pedras. As reminiscências foram desaparecendo ao mesmo tempo que, no lugar das águas agitadas, começou a surgir a face como reflexo de si próprio. A clareza do reflexo assustou-o. A nitidez com que agora se via refletido mais parecia estar frente a um espelho.
Onde estaria o original?, questionou-se.
A confusão surgia-lhe na mente pelo que mexeu os lábios para melhor perceber, quem seria a origem e quem seria o reflexo, quem seria o criador e quem seria o criado.
... alguma tranquilidade surgiu após uns segundos de inquietação, quando compreendeu que a imagem obedece à origem, que ainda existe controlo sobre a sua própria aparência.
De súbito, sente um frio que estala pelo corpo, quando surge no seu pensamento a possibilidade de ele próprio ser aparência de algo que não vê, ser uma existência de uma essência escondida. Da mesma maneira que poderia comprovar a existência do reflexo, porque não ser ele próprio reflexo de outra coisa qualquer?
Provavelmente não serei, pensou.
Certamente não seria, mas aquela ameaça continuava bem viva na sua cabeça. Parecia tudo confuso, e este homem tinha habitualmente os pés bem assentes, pelo que, apenas a confusão podia influenciar o raciocínio e deturpar a sua razão. Afinal, ainda tinha controlo sobre os seus movimentos e domínio sobre as suas expressões faciais, razão essa aparentemente suficiente para sentir uma enorme sensação de poder sobre si próprio.
Surgiu o vento e com ele algumas folhas a caírem sobre a água do lago. O homem não resistiu em tocar com os dedos na água fria. Ao mesmo tempo que se arrepiava, sentia dentro de si um outro tipo de frio. Assustou-se. Olhou em volta e compreendeu que a face triste ou alegre, estava mais vezes dependente do exterior do que dele próprio, a própria expressão facial era reflexo de algo alheio. Onde estaria agora o seu poder de controlo? Cerrou os punhos, afirmou em voz bem alta e com alguma irritação:
Mas eu respiro porque Eu quero! Eu ainda mando em mim!
Após o grito de desespero, respirou profundamente como se demonstrasse a si próprio o argumento que proferia...
e veio a calma e o silêncio. Um silêncio tão profundo que nem o vento se ouvia. A água do lago pareceu render-se ao seu desespero e permaneceu serena ao mesmo tempo que refletia agora as imagens envolventes como uma pintura se tratasse... um silêncio tão profundo que apenas permitia ouvir ele próprio... até ouvir apenas o seu ritmo cardíaco. O coração, esse batia sem que ninguém mandasse! E o homem compreendeu que o seu próprio motor agia sem a sua ordem. Percebeu que a sua própria condição não carecia da sua vontade.
Olhou novamente o lago e resignou-se ao silêncio e à face refletida na água.

 

08 janeiro, 2017

Escrever poesia à maneira de uma Pessoa – Parte I


                                                   In corde*


                                                     Sabia de cor
                                                     O teu negro cor**
                                                     O teu triste fado
                                                     No corpo timbrado
                                                     De atroz dor sentida…
                                                            Sem cor, sem sabor,
                                                            Sem humana vida!

                                                      Vejo-te e revejo-te
                                                      In corde et ex corde***.
                                                      No passado fomos sós
                                                      Atados aos mesmos nós
                                                      De culpa sombria e vil…
                                                             Ó Vingança crua e fria,
                                                             A mim retornas servil!

                                                       Encontros e desencontros,
                                                       Vários e errantes caminhos…
                                                       Um desencanto comigo
                                                       No coração inimigo…
                                                       Encruzilhada sem calma…
                                                               Seguimos desencontrados,
                                                               Estóicos escravos d’ alma…

                                                       Ah, poder eu desatar
                                                       Os nós cegos que nos unem!
                                                       Veias, artérias, sangue,
                                                       Corpos cegos de amar,
                                                       A mim regressas sombrio!
                                                                 Saliva, sabor, suor,
                                                                 Forte cor distante e frio!  

                                                                                          Ex corde****,
                                                                                                                                                                                                 
                                                                     β,  07.01.17
        



* Ablativo singular do nome latino cor, cordis: “no coração”.
** Nominativo singular do nome latino cor, cordis: “coração”.
*** “Dentro do coração e fora do coração”.
**** Expressão latina empregada no fecho de cartas dirigidas a pessoas queridas.