12 fevereiro, 2017





 

Atitudes

Nada parece fazer sentido em si mesmo, mas em virtude da sua relação com alguma coisa. Isolar o pensamento humano significaria a redução absoluta ao absurdo, sobretudo pela sua limitada capacidade de apreensão da totalidade. Renegar a relação das partes com o todo é a criação de ilhas existenciais que são motores de produção de egoísmos e de pensamentos egocêntricos que em muito tem contribuído para uma actualidade universal.
A inversão deste exercício mental, e do seu alargamento da escala às dimensões da humanidade e da totalidade do tempo, implica desafios gigantes mas dentro da dimensão humana, por forma  a procurar o sentido nos seus próprios actos dentro da globalidade, ou seja, “não dar mais valor à queda de um império que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às acções de um rei do que a um suspiro de amor” conforme afirma o historiador José Mattoso.
A pretensão da totalidade é um desafio à capacidade humana, e abarcar tal empresa poderá divergir tanto quanto a riqueza e diversidade da sua natureza. Estará de qualquer forma sempre dependente da atitude do próprio homem, pelo que, pela liberdade que possuo defendo a atitude contemplativa*. Esta atitude não pretende afirmar-se como ideia de passividade, de “irrealismo beatífico”  ou de uma qualquer procura transcendental. Procura antes uma observação atenta do real ou como afirma Alberto Caeiro “da espantosa realidade das coisas”.
Esta atitude procura estender o olhar até aos limites da história e do Universo com a pretensão de tudo envolver num único olhar. Esta ambição pela totalidade é pois a observação que procura captar todas as suas dimensões: não apenas as mensuráveis mas o que as coisas evocam ou simbolizam, não apenas o que a ciência pode classificar com as suas metodologias mas o que também pode ser captado pelo registo poético ou artístico.
Abrir o pensamento à totalidade é pois um desafio do homem à apreensão do real em todas as suas facetas e implica a sua vontade para disponibilizar recursos racionais mas também volitivos, o que significa afirmar que os sentidos do corpo e do espírito se devem “abrir” de tal modo ao real que lhe seja como que interiorizado e absorvido pelo próprio homem.
Esta atitude ou exercício é pois um ato de amor, que pretende a parte no Todo, o homem na Humanidade. 

 * Expressão retirada do autor José Mattoso no âmbito da Conferência realizada na Faculdade de Ciências da Universidade de Nova de Lisboa



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